Fediverso: um experimento com redes sociais descentralizadas, e museus

Existe um mal estar na Internet.

Foram muitas as crises vividas nos últimos anos como consequência direta de problemas envolvendo as redes sociais gerenciadas pelas empresas conhecidas como BigTech. Em 2023 culminou entre especialistas e políticos, no Brasil e no exterior, a percepção de que o serviço gratuito prestado por tais empresas — contaminado com esquemas agressivos de vigilância para oferta de anúncios customizados — estariam prejudicando a saúde e o bem estar dos cidadãos usuários, especialmente os jovens. O problema da desinformação, por seu lado, estaria criando ameaças aos regimes democráticos.

No último post do blog, “sobre a importância de uma política de memória digital“, mencionamos como as BigTech tornaram-se monopólios que acabam por dificultar o acesso a conteúdos que podem ser de interesse público, e que diferentemente de universidades e instituições de memória, tais empresas não garantem a preservação para acesso desses conteúdos no futuro. De onde observamos, percebemos no momento atual uma perspectiva de mudança na web, e os sinais indicam que “algo verdadeiramente novo e diferente pode acontecer” na forma como nos comunicamos online [1], [2], [3] e [4]. Aparece uma palavra nova: “Fediverso”.

How to fix the internet

Como consertar a internet
“Vivemos um momento peculiar na Internet, e todos sentimos os problemas. Mas há algo no ar, uma atmosfera de mudança. Pela primeira vez em anos, algo verdadeiramente novo e diferente pode estar acontecendo na forma como nos comunicamos online. O domínio que as grandes plataformas sociais exerceram sobre nós na última década está enfraquecendo. A pergunta é: o que queremos que aconteça a seguir?
(How to fix the internet – MIT Technology Review – 17/10/23)

A oportunidade do Fediverso
Há uma oportunidade neste momento para o ambiente das mídias sociais: uma chance rara de implodir os muros, reconstruindo o sistema peça a peça, e de forma muito melhor. Se fizermos corretamente — se o novo modelo for construído para servir humanos, e não anunciantes — teremos algo muito mais importante: uma infraestrutura comum totalmente nova para nossas vidas online, que não é controlada por nenhuma empresa ou plataforma.
(2023 in social media: the case for the fediverse – The Verge – 19/12/23)

Fediverso em ascenção
O que importa é como os usuários serão atendidos em um modelo no qual cada um de nós controla nossas personas públicas. Essa mudança tem o potencial de alterar não apenas nossas expectativas sobre o conteúdo que compartilhamos e consumimos, mas também nossa compreensão do que constitui uma troca de valor honesta e justa com as BigTech. É estranho reconhecer que um grande impulsionador dessa mudança será a Meta, que já começou a “federar” seu serviço Threads.
(Predictions 2024: It’s All About The Data – SearchBlog – 27/12/23)

A Internet pode pirar novamente
“Vivemos uma era dramática e tumultuada na internet. Mais do que qualquer coisa, é um momento em que a internet parece pronta para mudanças, talvez até aberta a uma nova geração de tecnologias e comunidades que poderiam remodelar a maneira como ela funciona. Milhões de pessoas parecem prontas para se conectar de maneiras inovadoras, enquanto repensam sua relação fundamental com a tecnologia.”
(The Internet Is About to Get Weird Again – Rolling Stone – 30/12/23)


O cenário atual no universo das redes sociais, conforme apresentado na mídia especializada internacional (acima), somado à predileção especial do brasileiro por este modo de comunicação online, nos levaram a imaginar que uma política pública para o campo, em um país com a escala do Brasil e aproveitando do momento propício, poderia causar um efeito demonstrativo relevante. Por isso o Ibram entende que é oportuno a realização de um experimento com redes sociais federadas, e museus — instituições de memória.

Mas afinal, o que são redes sociais federadas?

O termo “Fediverso” é uma combinação das palavras “universo” e “federação”. Trata-se de um ambiente digital que congrega redes sociais, onde as pessoas podem se conectar e compartilhar conteúdos. A diferença é que, em vez de depender de uma única empresa ou site gigante, existem muitos “planetas” diferentes (servidores) que se comunicam entre si nesta “Federação”. Este universo tornou-se possível com a criação do protocolo ActivityPub* em 2016 pelo W3C**, o qual permite a criação, atualização e exclusão de conteúdo em redes descentralizadas.

Essa abordagem descentralizada permite que usuários de diferentes plataformas interajam uns com os outros, compartilhem conteúdo e sigam usuários de outras instâncias. O objetivo é criar uma rede social mais diversificada e distribuída, evitando a centralização de dados e o controle por parte de grandes corporações. Importa para os museus, por exemplo, que se houver um serviço de rede social que se disponha a abrigar instituições de memória de interesse público, que os dados da interação dos museus com seu público interessado fique também preservado, como acervo digital, e para pesquisa.

Desde a criação do protocolo ActivityPub, várias aplicações foram criadas para operar de maneira “federada” neste universo. Dentre as aplicações, a mais conhecida e utilizada é o Mastodon, que replica a experiência de uso do Twitter como interface para o acesso e postagem de conteúdos. Outras aplicações conhecidas incluem o PeerTube (compartilhamento de vídeos, como o YouTube), o Pixelfed (replica o Instagram), o Mobilizon (aplicação para eventos), e até as redes mais ‘antigas’ como Diaspora (1ª “alternativa” ao Facebook) e Friendica encontram uma forma de se conectar com o Fediverso. Abaixo, um mapa da atual configuração do Fediverso.

O diferencial significativo do protocolo ActivityPub é a implementação de um único gráfico social — o registro de quem seguimos, e quem nos segue na rede — e de um sistema de compartilhamento de conteúdo próprio, os quais neste protocolo não estão sob o domínio de nenhuma empresa de tecnologia. As aplicações necessárias para gerir a conexão com este ambiente — o Mastodon, e os demais — são desenvolvidas por iniciativas autônomas e em geral operam em regime open source, portanto, instituições interessadas em promover a preservação de seus conteúdos, e gerir de maneira autônoma suas conexões de rede social, podem utilizar estas ferramentas.

A boa notícia, anunciada pela meteórica perda de relevância do X-Twitter, é que alguns dos grandes players da internet começam a perceber que a era dos monopólios nas redes sociais está no fim. A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, ao perceber a fuga de usuários do X-Twitter, lançou o serviço chamado Threads, o qual já começa a experimentar a conexão de seus usuários com o protocolo ActivityPub. Isto aconteceu logo após a Automattic, que gerencia o WordPress, ativar um plugin ActivityPub que viabiliza a conexão de todos os blogs do WordPress.com como publicadores no Fediverso. Outra nova rede lançada recentemente para brigar pelo espólio do X-Twitter, a BlueSky — desenvolvida com financiamento do cofundador do Twitter Jack Dorsey —, também propõe um protocolo aberto para integração de aplicações de redes sociais descentralizadas, o ATProto, que pode dialogar com o ActivityPub. Ou seja, temos indicações dos bastidores da indústria que o momento é propício para apostar na popularização do Fediverso.

É neste contexto que iniciamos um novo experimento da política pública brasileira no universo das redes sociais descentralizadas. Para inaugurar a iniciativa dos Museus brasileiros no Fediverso, iremos ativar o plugin ActivityPub no site WordPress da Brasiliana Museus, e este post será a primeira publicação de um domínio gov.br no Fediverso. Comentários a este post, originários do Fediverso, vão aparecer na seção de comentários abaixo. Trata-se de um início, uma experimento singelo mas que pode carregar grande significado. Torcemos para que seja o início de um movimento transformador na maneira como nós, como pessoas e como instituições, nos conectamos online, e que venha a proporcionar um aperfeiçoamento em nossa relação fundamental com o digital e com a web.

(*) ActivityPub – O ActivityPub é um protocolo de rede social descentralizado e padrão aberto para a troca de atividades e atualizações entre diferentes plataformas e serviços. Desenvolvido como um padrão web pelo World Wide Web Consortium (W3C), o ActivityPub fornece um método para a interoperabilidade entre sistemas de rede social distribuídos.

(**) W3C – O W3C, ou World Wide Web Consortium, é uma organização internacional que se dedica ao desenvolvimento de padrões para a World Wide Web. Foi fundado em outubro de 1994 por Tim Berners-Lee, o criador da Web, com o objetivo de garantir o crescimento e a interoperabilidade a longo prazo da Web.

11 comentários

  1. @blog É uma alegria ver essa iniciativa! Quero muito ver os canais de comunicação do governo não dependendo de instituições privadas internacionais, e isso é um belo passo nessa direção.
    Muito obrigado!

  2. @blog muito feliz em ver instituições governamentais aderindo às redes federadas e aos protocolos abertos, espaços em que a independência e a pluralidade podem florescer de forma saudável e sem interferência externa. Longa vida à iniciativa e boa estadia a todos por aqui! 😄🖖

  3. Agradecemos todo o apoio e entusiasmo!
    Também ficamos muito felizes com o experimento, e o resultado em termos de visitação da página reforça a decisão de seguir com a proposta. Apresentamos na imagem abaixo o tamanho do interesse suscitado, óbvio resultado da circulação do post pelo Fediverso, e contamos com a participação de todos na sequência da iniciativa.

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