Versão em PT-BR do post visitante da Dra. Oonagh Murphy, professora da Goldsmith University of London, publicado originalmente no LinkedIn em 01/06/2026: “Museums as sites of Critical Technology Discourse” – Conferência MuseologyX, Universidade de Liverpool, junho de 2026.
Fui convidada pelo Dr. Richard Benjamin para falar na primeira Conferência MuseologyX, na Universidade de Liverpool. Foi uma oportunidade bem-vinda para revisitar reflexões anteriores sobre museus e inteligência artificial — e compartilho aqui, com pequenos ajustes, o texto que preparei para a ocasião.
Quero começar com uma provocação.

Os museus não deveriam simplesmente *usar* tecnologia. Eles deveriam estar entre os principais espaços cívicos nos quais a tecnologia é publicamente questionada, culturalmente situada e eticamente contestada. Dito de forma direta: se os museus não forem espaços de discurso crítico sobre tecnologia, correm o risco de se tornarem porta-vozes do poder tecnológico.
Essa posição está no centro do meu trabalho. Tenho argumentado que os museus devem ser adotantes de tecnologia orientados por propósito — e que são espaços cívicos fundamentais para a forma como compreendemos a tecnologia. Isso porque, como todos nós sabemos, os museus não são apenas lugares onde a cultura é exibida; são lugares onde a cultura e as normas são debatidas, criadas e definidas. Museus não apenas preservam a vida pública — eles ajudam a moldá-la.
O museu como “conjunto de dados original”
Os museus têm sido testemunhas de mudanças políticas, sociais e tecnológicas ao longo de séculos — não apenas nos objetos que guardam, mas na forma como os guardam e na razão de sua existência. Dos gabinetes de curiosidades aos espaços de engajamento cívico e discurso público, os museus nunca foram recipientes inocentes de objetos.
Costumo descrever os museus como as instituições que criaram taxonomias, estabeleceram hierarquias de conhecimento e produziram linguagens descritivas para fenômenos culturais, naturais e sociais complexos. Essa história os coloca em posição privilegiada para compreender o que os sistemas de IA fazem — porque a IA também depende de classificação, reconhecimento de padrões, ordenação e inferência, retomando a leitura de Sharon Macdonald sobre o museu como um lugar de observação sistemática, comparação, classificação e ordenação. Os museus criaram taxonomias, estabeleceram hierarquias de conhecimento e produziram linguagens descritivas para fenômenos culturais, naturais e sociais complexos. Essa história os coloca em posição privilegiada para compreender o que os sistemas de IA fazem — porque a IA também depende de classificação, reconhecimento de padrões, ordenação e inferência.
Mas é exatamente por isso que os museus precisam adotar uma posição crítica. Os sistemas de IA dependem de dados históricos — e dados históricos nunca são neutros. Dados são objetos socioculturais por direito próprio.
Recolonização digital e o imperativo da desmistificação
Os museus sabem disso talvez melhor do que a maioria das instituições, porque nossas coleções foram moldadas pelas relações de poder dos mundos que as produziram. Se pensarmos nas histórias de formação de coleções — aquisição colonial, taxonomia racializada, sistemas de conhecimento excludentes —, os museus têm boas razões para desconfiar de qualquer sistema tecnológico que apresente a classificação como objetiva ou neutra.
Por isso a desmistificação importa. Ao explicar tecnologias de IA, considero útil ancorar a explicação na infraestrutura física dessas tecnologias. A IA não é magia; ela é feita por mãos humanas. A IA não vive na nuvem; ela é extraída da terra.
Essa formulação é uma tentativa de deslocar a conversa. Quando a IA é enquadrada como mágica, autônoma ou inevitável, a responsabilização some de vista. Quando é compreendida como trabalho humano, decisões corporativas, infraestrutura material e extração ambiental, podemos fazer perguntas diferentes: quem construiu o sistema, de quem é o trabalho que o mantém, quais valores estão nele incorporados, e quem arca com o risco quando ele falha.
Museus como fóruns públicos — não apenas prestadores de serviço
Isso não significa que os museus devam se posicionar como críticos externos, observando de fora. Os museus já estão implicados nesses sistemas. São instituições centradas em dados: coletam e criam formas diversas de dados — sobre objetos, visitantes, edifícios, comportamentos, coleções e públicos. Como tal, os profissionais de museus já possuem muitas das competências necessárias para se engajar de forma significativa com a IA.
A questão não é se os museus têm expertise para entrar na discussão. A questão é se os museus estão dispostos a reconhecer sua própria expertise como atores cultural e politicamente significativos no desenvolvimento das tecnologias de IA.
Os museus são terceiros espaços não comerciais, entre o lar e o trabalho: lugares que permitem às pessoas pausar, pensar, questionar e se engajar com o mundo. Isso importa porque grande parte da narrativa sobre IA é atualmente escrita pelas empresas que constroem esses sistemas. Sua linguagem é frequentemente a linguagem da inevitabilidade, da conveniência sem atrito e do solucionismo. Os museus podem oferecer um contraponto a essa narrativa.
Participação, desordem e negociação de sentido
A teoria participativa mais antiga permanece útil aqui. Em trabalhos anteriores sobre prática participativa, apoiei-me em Nina Simon, Jenny Kidd, Charles Leadbeater, James Bradburne e outros para argumentar que os museus precisam passar de “fazer coisas para as pessoas” para “fazer coisas com as pessoas”.
Significa que os museus não são apenas locais de transmissão; são locais de negociação. É precisamente por isso que são espaços valiosos para o discurso crítico sobre tecnologia. O alerta de Jenny Kidd sobre a potencial narrativa caótica é útil aqui — porque nos lembra que a cultura participativa não é arrumada. Mas essa desordem também é o que a torna socialmente importante. Significa que os museus não são apenas locais de transmissão; são locais de negociação. É precisamente por isso que são espaços valiosos para o discurso crítico sobre tecnologia.
Da prática: redes, toolkits e programação pública
A Rede Museums + AI, que estabeleci com parceiros incluindo a National Gallery e o Metropolitan Museum of Art em 2019, foi concebida para ir além da especulação utópica e distópica e focar nas realidades práticas e éticas da IA nos museus. Um dos resultados desse trabalho foi o *AI: A Museum Planning Toolkit*. O que ainda me importa nesse recurso é que ele não oferece respostas fixas — em vez disso, ajuda os museus a fazerem melhores perguntas sobre capacidades, ética e partes interessadas.
Por meio dos eventos “Curator Computer Creator” no Barbican e no Cooper Hewitt, convidamos membros do público a conversas sobre o que a IA poderia significar para suas próprias vidas. No Museu Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, o programa *Digital Dilemmas* criou uma plataforma pública de um ano para pensar sobre tecnologias digitais pela lente do humanitarismo, da sociedade e do valor público.
Mais recentemente, trabalhei com o MUNCH, na Noruega. Nesse projeto, a IA foi usada não apenas para criar uma experiência interativa para o visitante, mas para abrir conversas mais amplas sobre criação artística, proteção de dados, responsabilidade e educação pública. A questão central não era apenas o que a IA poderia tecnicamente fazer com uma coleção digitalizada, mas que tipo de posição institucional o museu queria adotar em relação a essas tecnologias.
Três perguntas que sempre retornam
Essas perguntas importam porque legalidade e capacidade não são suficientes. Se os museus reduzirem suas responsabilidades tecnológicas a conformidade, aquisição e gestão de riscos, terão compreendido mal seu papel público. Os museus não deveriam simplesmente ecoar as suposições do setor tecnológico. Deveriam criar as condições nas quais essas suposições possam ser questionadas.
Isso também significa reconhecer a falibilidade dos museus. As tecnologias de IA são falíveis, mas os museus também o são. Os museus não precisam ser perfeitos para hospedar o discurso crítico. Mas precisam ser reflexivos.
Os museus precisam compreender que suas próprias histórias de poder, classificação, exclusão e expertise fazem parte do que os equipa para falar de forma significativa nos debates contemporâneos sobre IA. Os museus sabem o que significa herdar categorias problemáticas. Sabemos que as taxonomias nunca são inocentes. Sabemos que a confiança precisa ser construída, perdida e reconstruída. Essas histórias não deveriam nos silenciar — deveriam aguçar nossa contribuição.
Para encerrar
Os museus podem reunir história e pensamento sobre futuros, interpretação e infraestrutura, criatividade e responsabilidade, experimentação e cuidado. Podem tornar visível a distância entre o que a tecnologia pode fazer e o que a sociedade deveria querer que ela fizesse.
É por isso que os museus deveriam ser espaços de discurso crítico sobre tecnologia — não como um acréscimo opcional à estratégia digital, mas como uma das responsabilidades cívicas definidoras do museu no século XXI.
Fediverse Followers
-
-
joaoandrademuseus @joaoandrademuseus@mastodon.social
-
Miguel Peixe @miguelpeixe@mato.social -
Ines Aisengart Menezes @tragnesia@mastodon.social -
Giulian @giuliandrimba@mastodon.social -
Jules she/her @afewbugs@social.coop -
Claudia @Tatiweb@waag.social -
Visitante – Pesquisadora @visitante@xemele.social -
Elliott D. Paige @elliottdpaige@me.dm -
Brasiliana Museus @BrasilianaMuseus@xemele.social -
victormarinho @victormarinho@mastodon.social