Viva Santo Antônio! Viva São João! Viva São Pedro!
As Festas Juninas estão entre as manifestações culturais mais presentes e reconhecidas do Brasil. Celebradas ao longo do mês de junho e, também no início de julho, elas reúnem tradições religiosas, saberes populares, músicas, danças, culinárias e formas de convivência que atravessam gerações e diferentes regiões do país.
Dedicadas a Santo Antônio (13 de junho), São João Batista (24 de junho) e São Pedro (29 de junho), essas celebrações chegaram ao Brasil por influência das festividades europeias, mas ganharam aqui novos significados. Ao longo dos séculos, incorporaram elementos das culturas indígenas, africanas e rurais brasileiras, formando um patrimônio cultural diverso e vivo. As fogueiras, as bandeirinhas coloridas, as quadrilhas, os instrumentos musicais, os alimentos derivados do milho e as manifestações da religiosidade popular fazem parte desse universo simbólico que continua a ser recriado a cada ano.

A Rota da celebração: da Europa aos Trópicos
Enraizado em rituais pagãos inspirados em temas como à fertilidade da terra e à fartura nas colheitas, os festejos juninos se popularizaram aqui do outro lado do Atlântico para celebrar o dia mais longo do ano no Hemisfério Norte, conhecido como solstício. Introduzidas pelos jesuítas no século 16, as comemorações juninas correspondem ao período de chuvas nos trópicos e se mesclaram às festas de culturas originárias na celebração da colheita em junho. Fernão Cardim, padre português, registra a tradição como uma das festas mais características do povo tupi do litoral do Brasil.
Tres festas celebram estes índios com grande alegria, aplauso e gosto particular. A primeira é as fogueiras de S. João, porque suas aldêas ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras não os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem ocouro (…) (pg. 316)
Fernão Cardim
Tratados da terra e gente do Brasil
escrito entre 1583 e 1601
O Céu é o limite
O balão, representante do elo entre a terra e o céu, se faz presente em diversas obras artísticas, delineados nos céus coloridos pelos pincéis de Candido Portinari e Alberto da Veiga Guignard, e nas bandeirinhas de Alfredo Volpi.
Para anunciar as festas juninas nas comunidades e aldeias, o balão não se limitava apenas à função de comunicar o início dos festejos. A confecção, o acendimento e a soltura do balão simbolizavam uma estreita conexão do homem com o divino. No momento da ascensão do balão, não era raro ver o cenário de pessoas balbuciando seus pedidos a Santo Antônio, São João e São Pedro.
Cai, cai, balão
Cai, cai, balão
Aqui na minha mão
Não cai não, não cai não, não cai não
Cai na rua do sabão

A devoção no período junino
Apesar de se caracterizar como uma tradição integrada ao Catolicismo, essas festas no Brasil registram a incorporação de diversos elementos da sua cultura popular: a alimentação, as danças, as músicas e as bebidas são alguns dos aspectos principais da comemoração.
No calendário da Igreja Católica, o mês de junho marca os períodos de homenagens a Santo Antônio, São Pedro e São João Batista, especificamente nos dias 13, 24 e 27. Cabe ressaltar que o sincretismo religioso se faz marcante no país em religiões de matriz africana a exemplo do Candomblé, em que Santo Antônio é reconhecido como Exu e também como Ogum, deus da guerra.
Acervo alusivo à temática de santos homenageados nas Festa Juninas: Museu das Bandeiras (GO), Museu das Missões (RS), Museu de Caeté (MG), Museu Histórico Nacional (RJ) e Museu do Ouro (MG)
Santo Antônio
Comemorado em distintos locais pelo mundo, Santo Antônio de Lisboa, nascido no século XII, foi citado por Leão XIII como “o santo de todo mundo”, devido à grande dedicação e veneração dos devotos a esse santo de origem lusitana. No Brasil, a devoção popular ao santo se manifesta em contextos sacros e profanos com intensa participação dos fiéis em cortejos, procissões, missas, quermesses, romarias e bandas de música.
Representado nas artes com atributos que envolvem o hábito franciscano, um livro e, por vezes, o Menino Jesus e também uma cruz hasteada ou lírio, Santo Antônio é tido como “santo casamenteiro”. Esta tradição se faz ainda mais presente na crença de que as moças que tocarem no pau da bandeira durante a celebração se casarão em um ano. Dada a sua importância, destaca-se o registro da Festa de Santo Antônio de Barbalha (CE) como patrimônio imaterial do Brasil, popularmente conhecida como “Festa do Pau da Bandeira”.
Acervo alusivo à temática de Santo Antônio: Museu Solar Monjardim (ES), Museu de Caeté (MG), Museu do Ouro (MG), Museu do Diamante (MG), Museu Histórico Nacional (RJ), Museu de Arte Religiosa e Tradicional (Cabo Frio, RJ), Museu das Missões (RS) e Museu da Abolição (PE).
São João Batista
São João Batista é retratado nas artes como criança ou em fases de adolescente ou adulto tendo o cordeiro ou a pele do animal como atributo. Seu nascimento em 24 de junho é uma das datas celebradas dos santos nas Festas Juninas. Ao redor dos festejos desse santo, destacam-se os fogos de artifício e as fogueiras, símbolos de luz brilhante e ardente que celebra seu nascimento. É também um dia popular de batismo de crianças, tendo representações alusivas ao Batismo de Cristo no rio Jordão. Nas religiões das matrizes africanas, o fogo se reporta a Xangô, manifestação feita ao orixá da Justiça pela tradição da fogueira.
Acervo alusivo à temática de São João Batista: Museu da Inconfidência (MG), Museu de Arte Sacra da Boa Morte (GO), Museu Histórico Nacional (RJ), Museu Regional de São João Del Rei (MG), Museu do Diamante (MG) e Museu Solar Monjardim (ES).
São Pedro
Reconhecido como o primeiro Papa da Igreja Católica, São Pedro é celebrado no encerramento das Festas Juninas, no dia de seu martírio: 29 de junho. Ele era pescador antes de se tornar Apóstolo. A tradição popular o designa como aquele que tem as chaves para abrir e fechar o céu, muitas vezes se referindo às condições climáticas.
Em suas representações mais comuns, aparece, como homem idoso e barbado, Apóstolo, tendo chaves e um livro nas mãos. Também é comum aparecer como Papa, com traje de chuva, segurando chaves e com a mão em posição de bênção. Em outras representações, tem-se a presença de peixe e galo, simbolizando o início de sua trajetória de vida.
Ele é o santo que dá nome à Basílica do Vaticano, construída pelo Imperador Constantino. Sobre os alicerces da Basílica foi erguida a célebre estrutura com a participação de renomados arquitetos, como Gian Lorenzo Bernini, no século XVI.
Acervo alusivo à temática de São Pedro: Museu da Inconfidência (MG) e Museu de Arte Sacra da Boa Morte (GO)
O ecoar do Brasil ao som de Villa Lobos
Heitor Villa-Lobos (1887-1959) tinha o espírito modernista de sua época. Entre 1905 e 1912, inspirava-se ainda mais a cada descoberta e tornou-se um dos expoentes da música ao criar registros com a identidade cultural brasileira.
Ao lado de Candido Portinari, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald Andrade, entre outros, o compositor carioca procurava exaltar o âmago da alma brasileira ao vivenciar sons, aspectos da natureza e manifestações populares, entre as quais se enquadraram as Festas Juninas em diversos cantos do país.
Sob forte influência da cultura popular, indígena e afro-brasileira, Villa-Lobos viria revolucionar a música erudita com suas composições. Em Bachianas Brasileiras Nº 5 apresenta traços de modinha e em Bachianas Brasileiras Nº 2 imortalizou o poema sinfônico ‘O Trenzinho do Caipira’. Neste espírito, destaca-se pela sensibilidade eternizada em obras orquestrais e apresentadas ao mundo como identidade do Brasil.
Acervo do Museu Villa-Lobos (RJ) retrato do compositor, partitura de “O Trenzinho Caipira” e fotografia do violão do artista.
Como a natureza de meu país é muito rica e variada /…/ tem todos os tipos de coisa que podem servir a um artista /…/, eu penetrei na alma do povo, na natureza! Pesquisei os ruídos de todos os rios, das quedas dágua, dos índios, dos negros, dos pássaros /…/ e assim trabalhei, como alguém que trabalha num laboratório, pesquisando o meio de encontrar minha personalidade.
Heitor Villa-Lobos
A Culinária em tempos juninos
De natureza multicultural, os pratos da culinária junina se originam da agricultura caipira revelados em receitas típicas com ingredientes à base de milho e amendoim. Alguns carros-chefes salgados e doces se destacam nas tendas: a pamonha, o curau, o milho cozido, o cuscuz, a canjica, o pé de moleque, o bolo de fubá, a paçoca, sendo geralmente acompanhados pelo quentão e vinho quente, além de outras bebidas para aquecer do frio das celebrações juninas.
Para o preparo das receitas, as panelas e acessórios em sua maioria de barro, pedra e madeira são fundamentais na manufatura dos quitutes e iguarias por mestres da arte culinária, comumente oferecidos os sabores da comida típica do “arraiá” em cestos, pratos forrados por paninhos e gamelas.
Acervo alusivo à culinária nos museus: Museu Regional Casa dos Ottoni (Serro, MG), Museu Forte Defensor Perpétuo (Paraty, RJ) e Museu de Alcântara (MA).
As Danças, Cantigas e Fogueiras Juninas
De norte a sul do Brasil, as Festas Juninas se proliferam e ampliam sua estrutura para atender às alegrias motivadas pelas comemorações ao longo de todo mês de junho. Entre os maiores destaques de festa ao ar livre se encontram a Festa de São João de Caruaru, em Pernambuco, a Festa de Campina Grande, na Paraíba, quando se transformam em verdadeiras capitais do forró, um dos principais ritmos que embalam as danças nos festejos no Nordeste, sem deixar de exaltar o Bumba Meu Boi de São Luís, no coração da capital maranhense.
As danças típicas expressam a alegria, o molejo e o colorido dos trajes típicos dos dançantes da quadrilha, do forró, do baião, do arrasta-pé, da dança de fitas, do xaxado e do bumba-meu-boi. O casamento caipira é um dos ápices da quadrilha, dança coletiva herdada dos bailes europeus e adaptada à realidade da comunidade rural. Já a Dança das Fitas se caracteriza pelo trançado de fitas coloridas ao redor do mastro feitos pelos dançarinos aos pares participam que se divertem no zigue-zague da dança folclórica. No Norte e Nordeste do país, o Bumba Meu Boi se mescla ao teatro e ao circo, representando a lenda de morte e ressurreição do boi.
Sob céus estrelados e ambiente aquecido pelas tradicionais fogueiras, os participantes das Festas Juninas se divertem e celebram a data ao longo de gerações, ao som de cantigas clássicas como Cai Cai Balão, Pula a Fogueira e Capelinha de Melão.
Acervo alusivo à indumentária, instrumentos musicais e de propaganda das Festas Juninas: Museu da República (RJ), Museu de Alcântara (MA), Museu Forte Defensor Perpétuo (Paraty, RJ) e Museu Histórico Nacional (RJ).














































