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Museu das Vistas, de Carla Zaccagnini
- Coleção
- Exposições
Imagem: Museu Victor Meirelles.
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Título
Museu das Vistas, de Carla Zaccagnini
Resumo descritivo
O Museu das Vistas, idealizado em 2002, foi pensado como um projeto eternamente em progresso, de maneira a constituir, gradualmente e a longo prazo, uma coleção que registre as mudanças que a passagem do tempo e a localização geográfica imprimem no olhar e na representação.
O MdV não é uma coleção de desenhos de paisagem, é uma coleção de maneiras de olhar, de lembrar, de descrever e de desenhar. Pensou-se na paisagem por ser um gênero tradicional da arte, símbolo do empenho no conhecimento (e da crença no domínio) da natureza por meio de sua representação. É necessário, entretanto, ressaltar a diferença que penso existir entre paisagens e vistas. Falar em vistas não somente traz à cena uma palavra importante (e, em parte, é de palavras que se trata aqui), mas também carrega um dado da experiência, uma carga de vivência e um importante enfoque da percepção.
Lembrar de uma vista, resgatar os detalhes da memória, construir mentalmente a imagem dessa paisagem e transformar essa imagem mental em discurso capaz de guiar a mão do outro de forma a reproduzi-la em desenho. Esses passos, por si só, já colocam em discussão questões relativas ao olhar e à representação, como ponto de vista, recorte, enquadramento, planos, foco, perspectiva, etc. O projeto investiga, assim, os processos e procedimentos de construção da imagem.
Trata-se, portanto, de uma dissecção do desenho. O desenho, claro está, como metonímia do fazer artístico, como forma primordial de registro do mundo. É difícil precisar em que ponto do processo se constrói o desenho: na composição da imagem mental feita pelo descritor; no traço do retratista que anota as palavras e atende instruções; na fala e na escuta; ou no planejamento e na proposição desse jogo.
O MdV é também um trabalho sobre a comunicação e seus lapsos, sobre o valor do discurso e sobre a tradução. Sobre possíveis equivalências e distâncias intransponíveis entre experiência e memória, entre texto e imagem, entre fala e traço, entre linguagens. Parte do trabalho está no embate da imagem mental com a imagem construída em grafite e nos recursos verbais de que se pode lançar mão para transmitir ao outro uma imagem de pensamento.
A autoria, o papel do artista e da arte e a função da exposição são repensados. A exposição, por exemplo, deixa de ser o lugar onde se mostra ou se vê o trabalho e passa a ser um campo de coleta de material. Ou o trabalho não é somente a coleção de desenhos mas também o processo de descrição das vistas e de registro dessas descrições. O MdV se refere, ainda, à relação entre original e cópia, já que o museu coleciona as segundas vias dos registros e entrega as primeiras aos descritores que, assim, guardam para si o retrato da vista que escolhem, filtrada por sua memória e suas palavras.
Penso no Museu das Vistas como um projeto de longa duração a ser desenvolvido em muitos lugares e momentos, construindo gradativamente uma coleção, como todo museu faz. Os colaboradores em cada um desses lugares terão permissão para continuar registrando vistas e para escolher um substituto quando decidam se aposentar. Isso criará um sistema autossustentável que, uma vez iniciado, pode funcionar em cada local sem a presença ou a participação da artista, criando raízes em cada um dos lugares onde se estabelece.
Carla Zaccagnini, setembro de 2003
Metadados da instituição e coleção
Nome da Instituição
Museu Victor Meirelles
Link da Instituição
Nome da Coleção de Origem
Exposições